Dirigido por Otoniel Oliveira e escrito por Marina Quadrelli, o filme teve origem em uma pesquisa de campo para desenvolver os cenários de uma nova série de animação que o Iluminuras está produzindo agora, “A Sensacional Vilabarca”, que estreia também este ano.
O filme se passa em Afuá, cidade amazônida do Arquipélago do Marajó, onde a paisagem urbana tem palafitas e passarelas de madeira no lugar de casas de tijolo e alvenaria e ruas de asfalto. Todas as construções são construídas elevadas do solo, para não serem afetadas pelas águas quando a estação de cheia acontece. Mas a cidade de Afuá se destaca por uma legislação própria: não é permitido nenhum veículo motorizado, apenas bicicletas. “Nós já estávamos bem mergulhados nas comunidades ribeirinhas por causa da série, mas acho que vivenciar uma cidade completamente à base da bicicleta foi muito inspirador” diz a roteirista.
Durante a pesquisa de campo, a Embratur lançou a segunda edição do edital BRASIL com S, em que financiavam a produção de curtas-metragem para mostrar o país em filmes que fortalecessem o soft power brasileiro. O diretor e a roteirista aproveitaram a chance e desenvolveram a ideia inicial do filme em Afuá mesmo. Se as casas e arquitetura serviriam para a pesquisa e referência de uma série sobre uma sociedade ribeirinha fantástica, este filme seria sobre a característica inusitada de Afuá só andar de bicicleta. Mas como o Iluminuras é um estúdio de animação, o projeto foi um filme animado. “Bici” é o primeiro filme de animação contemplado e produzido pela Embratur.
Segundo o diretor, Otoniel Oliveira, “A ideia era fotografar e desenhar Afuá como referência pra um mundo fantástico baseado nas sociedades ribeirinhas, como sempre conversei com a equipe [de cenaristas do Iluminuras] . Mas quando chegamos lá, pensamos que além de uma inspiração pra ficção, poderíamos falar daquela cidade que só anda de bicicletas”.
O filme de animação é uma prosopopéia, um tipo de história em que um objeto, nesse caso uma bicicleta chamada Bici, tem sentimentos e pensamentos. “Por que não colocar uma bicicleta no centro de tudo? Trazer Bici como uma protagonista feminina passa pela discussão do que é viver, envelhecer e da ideia de utilidade e pertencimento numa sociedade." Diz Marina Quadrelli, roteirista do filme.
Em época de inteligência artificial generativa, o filme foi feito completamente livre de IA segundo o diretor: “a bicicleta é uma tecnologia muito interessante, é o que chamamos de meio de transporte ativo, ela usa nossa força pra andar, não polui, é saudável e dialoga com uma sustentabilidade futurista e simples. Não usamos IA em nenhuma parte do filme, em nenhuma etapa. Uma escolha filosófica mesmo, já que queremos celebrar essa tecnologia simples e pura que é a bicicleta. Tudo foi escrito e animado à mão, pintado à mão e a trilha sonora foi feita usando somente violão acústico. Um trabalho humano, um filme humano sobre uma das invenções tecnológicas mais humanas, a bicicleta.”
A animação foi feita usando programas digitais pagos e alguns gratuitos, como o Krita. Mas diferente das séries de animação que geralmente usam recorte digital 2D em um RIG (um sistema de corpo com desenhos pré-programados) para animação, Bici foi animada com um estilo mais tradicional chamado frame a frame, que consiste em fazer vários desenhos em sequência como as primeiras animações em acetato. “A sensação de animar de maneira tradicional em meio a tanta tecnologia é a mesma que voltar a andar na sua bicicleta depois de um longo tempo”, diz Caio Graco, gerente de animação que coordenou mais de vinte animadores na produção do filme.
Para os cenários que ilustram o Afuá foram testadas algumas estéticas a partir das fotos e vídeos da pesquisa de campo, mas a técnica principal escolhida foi a aquarela, nanquim e pastel. A ideia sempre foi que se reconhecesse cenários. Foram todos produzidos com mídias naturais. Os cenáristas Fernando Carvalho e Endy Brito ficaram responsáveis pela arte dos cenários juntos com Otoniel Oliveira. Para Fernando, que não pintava em aquarela há mais de uma década, voltar a pintar com mídias naturais “foi como sentir o calor do sol e o ar da manhã depois de um longo tempo enclausurado na sombra”. Para Endy também, quando o processo de largar a mesa digitalizadora e as telas foi encomendado para ela no projeto: “Voltar a trabalhar no tradicional depois de tanto tempo usando o digital foi desafiador, mas me lembrou o quão apaixonante é.”
A trilha sonora do filme ficou por conta de Aron Miranda, compositor, professor e coordenador de uma camerata no Amapá, usando somente violão. “A trilha original da Bici busca refletir as transições pelas quais a bicicleta passa. O violão foi escolhido como principal instrumento por ter a capacidade de representar solidão, alegria coletiva, introspecção e contemplação. E ele é utilizado de formas não convencionais durante o filme, todas as percussões e sons de caixa são feitos nele, como se o violão também se reinventasse como a personagem”, diz Aron.
O filme “Bici, A História de Uma Bicicleta no Afuá” tem a produção de Victoria Rodrigues, e produção executiva de Andrei Miralha.